“Se preto de alma branca pra vc é exemplo de dignidade, (isso) não nos ajuda,
  só nos faz sofrer, não retrata nossa identidade” Jorge Aragão

Uso o título “Psicologia em cores” para abordar os processos subjetivos advindos da relação entre negras(os) e brancas(os) brasileiras(os).

Sei que para muitas(os) isso pode soar estranho: subjetividade demarcada pela raça1? Como assim?

Por incrível que pareça é simples compreender!

A população brasileira foi formada a partir de 03 (três) matrizes étnico-raciais específicas: os povos indígenas que habitavam o continente, as(os) brancas(os), representadas(os) pelas(os) portuguesas(es) que aqui chegaram no final do século XV, e as(os) negras(os) trazidas(os) de diversas regiões da África. Três culturas particulares que em determinado contexto sócio-histórico se interrelacionaram e produziram formas próprias de socialização.

Mas o modelo social produzido não superou padrões de hierarquização concreta e cultural entre os 03 povos; ou seja, houve, desde sempre, a supremacia da branquitude sobre a experiência indígena e a experiência negra.

Entretanto, esta hegemonia foi invisibilizada e mascarada sob o mito da “democracia racial” que defende que o “povo” brasileiro trata-se de uma população miscigenada sim, mas que há uma perfeita “fusão” entre estas culturas, sem que uma sobreponha-se a outra. Fato que nunca aconteceu!

Negras(os), indígenas e brancas(os) nunca ocuparam os mesmo lugares simbólicos e concretos na sociedade brasileira. E isso, obviamente, gerou consequências em diversas dimensões, inclusive a dimensão psicológica.

Focando objetivamente na relação entre negras(os) e brancas(os), nosso interesse de análise aqui, o que podemos observar que é que a subjetividade destes grupos foi e é profundamente marcada pela socialização racista.

Para a população negra, práticas veladas diárias de desvalorização, de inferiorização e subalternização abrem uma “ferida narcísica” de difícil cicatrização e com diversos efeitos ao longo da vida. Para brancas(os), a experiência de ser tomada(o) como referência universal, turva-lhe a percepção de seus privilégios, da opressão invisível que exerce e das ações preconceituosas que adota de forma absolutamente naturalizada. E por isso, em sua visão, autorizada, “normal”.

O silenciamento desta realidade, inclusive pela Psicologia Clínica, alimenta este cenário de exclusão e coloca nossa prática, infelizmente, em um lugar de absoluta insensibilidade para as dores apresentadas por pessoas negras (pólo frágil nessa díase) que, vez por outra, adentram os consultórios psicológicos procurando alivio e compreensão para seu padecimento e, muitas vezes, ao invés de acolhimento e empatia, encontra a dúvida e a desqualificação de sua narrativa estampada no rosto da(o) terapeuta.

Reconhecemos que se apropriar desta discussão exige um interesse extra por parte das(os) profissionais, visto que muito pouco ainda se produz em nosso país sobre este tema, o que consequência a não inclusão deste debate na formação de futuras(os) psicólogas(os) e preparação destas(es) para lidar adequadamente com os infortúnios, lutos e adoecimentos psíquicos advindos da relação branquitude/negritude.

A literatura racial traduz esse tipo de situação como uma manifestação do racismo estrutural, visto que as práticas perversamente discriminatórias estão tão naturalizadas que se tornam “invisíveis” aos olhos de quem não as sofre.

Se a(o) psicóloga(o) não pode ver, não poderá sentir, não poderá exercer a sensibilidade, abertura, empatia e escuta acurada exigidas pela prática clínica.

Interrogar sobre os efeitos subjetivos para negras(os) brasileiras(os) à exposição cotidiana a discriminações e preconceitos trata-se de uma ação ética que necessariamente precisa fundamentar um fazer psicológico que dialogue com a realidade e reconhece indivíduos a partir de suas histórias intrapsíquicas e coletivas. Histórias estas interdependentes e fundantes de sujeitos corpóreos, vivos.

Considero como uma obrigação ética fortalecer movimentos de rupturas que tornem a Psicologia mais sensível, acessível e atenta a possibilidades de existência que escapem a “conformação” tradicional do olhar Psi.

Por estes motivos é que entendo como necessidade premente que nós psicólogas(os) aprendamos sobre o racismo brasileiro, conheçamos seus arranjos e efeitos na saúde emocional da população negra e branca, e que possamos ser aliados à luta por um país mais igualitário de fato.

Para além de discursos vazios, precisamos nos haver com nossos lugares de fala, de privilégio, reconhecer a história e formação da Psicologia, seus produtores, interlocutores e público ao qual ela foi destinada.

Uma ciência e uma profissão tão importante para a ressignificação de pessoas e sociedades não pode permanecer distante desta dor pungente que dilacera mais de metade da população brasileira.

É tempo de reparação; é tempo de renovação; é tempo de ampliação; é tempo de inclusão.

Não é mais possível permanecer presos a determinadas redomas aristocráticas onde cabem tão poucas(os).

É tempo de bem estar, é tempo de saúde, é tempo de união; é tempo da Psicologia se abrir, se posicionar e viabilizar que seus conteúdos alcancem e beneficiem o maior número de pessoas possível.

Como já enunciou o psicanalista Jurandir Freire no prefácio do clássico livro sobre a subjetividade da população negra, “Tornar-se negro – As vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social” escrito pela também psicanalista e negra Neuza Santos Souza (1983)2

“A violência parece-nos a pedra de toque, o núcleo central do problema abordado (o racismo). Ser negro é ser violentado de forma constante, contínua e cruel, sem pausa ou repouso, por uma dupla injunção: a de encarnar o corpo e os ideais do Ego do sujeito branco e de recusar, negar e anular a presença do corpo negro. (…) Não é difícil então imaginar o ciclo entrópico, a direção mortífera imprimida a este ideal. O negro, no desejo de embranquecer, deseja nada mais, nada menos, que a própria extinção.”

A Psicologia, nós, psicólogas(os) podemos e devemos acolher essa dor. Temos muito a oferecer, e esta oferta não é menos que uma oferta de vida!

Vida que pode e deve ser plena e livre dos efeitos nefastos do racismo.

1 Raça aqui é apresentada como raça social, um conceito construído e fortemente representado no imaginário nacional, sem haver amparo biológico que sustente este termo.

2 SOUZA, Neusa Santos.” Tornar-se negro: as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social”. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983.

Texto elaborado pela: Psicóloga Silvia Silva CRP.: 04/18930 Facebook: @psicologiaemacaobh

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