“O diálogo é político e é poético.
É antídoto à intolerância (intolerância de todos nós!)”.
Filósofa Márcia Tibury

“Hoje em dia está impossível conversar!”

Ouvimos e dizemos frases desse tipo com muita frequência.
Mesmo tendo à mão diversos recursos que facilitaram nossa comunicação, parece haver um crescente distanciamento entre as pessoas.
Superficialidade, desconexão, impaciência e confrontos são queixas constantes quando nos referimos às nossas interações comunicacionais.

O que será que tem nos conduzido para esse padrão de comportamento?
Será que estamos mesmo perdendo nossa capacidade de conversar, de trocar, de dialogar com o outro?
E quando o diálogo é interno, será que estamos nos saindo melhor ou não?
Entre tantas perguntas e ruídos, este texto busca trazer algumas considerações à luz da Comunicação Não-Violenta (CNV) e sua interface com a clínica psicológica.

Nós, seres humanos, somos seres de linguagem. É através da linguagem, da
comunicação, que nos tornamos quem somos, acessando nossa humanidade.
Entretanto, fazer bom uso da linguagem pressupõe muito mais que dominar um idioma e suas regras gramaticais. Pressupõe que façamos um trânsito eficiente pela cultura e também por nossas (inter)subjetividades.

Neste sentido, a CNV se apresenta como uma alternativa aos padrões comunicacionais tradicionais, se baseando na conexão entre os seres humanos, na compaixão, na cooperação e na empatia.

O uso da linguagem e das palavras pode criar um espaço potencial de resgate da humanidade por vezes esquecida, em virtude da exposição contínua a processos de opressão, violências e alienações diversas.

Em uma descrição assim, sumária, pode parecer uma proposta ao mesmo tempo ambiciosa e simplista. Já adianto que não se trata de uma coisa, nem de outra!

Não é ambiciosa visto que o que a CNV propõe não é nada mais que nos conectar e nos estimular a fazer um uso afetivo da linguagem, relembrando-nos do que já sabemos. Ou seja, que podemos dialogar com outras pessoas e conosco de maneira livre de julgamentos, focando nos fatos objetivos da realidade, nos responsabilizando por nossos sentimentos e reconhecendo a humanidade do outro e a nossa também!

Simplista também não é, pois, reinventar novas formas de comunicação nos convida a tomar como referência modelos compassivos de interrelações, e, se consideramos que culturalmente somos educados a desenvolver relações intra e interpessoais violentas, é fácil perceber o tamanho dessa empreitada.

Mas ainda assim, mesmo não sendo simples e se apresentando como verdadeiro desafio, a CNV é extremamente sedutora em suas proposições, visto que oferece algo que muito desejamos: a possibilidade de nos conectar autenticamente com o outro!

Quantas vezes, no trabalho, na família, na escola, em grupos diversos e nas relações de amizade por mais que desejemos, não conseguimos estabelecer uma relação leve e propositiva? Quantas vezes somos mal interpretados, somos interrompidos, ou sequer conseguimos nos fazer ouvir? Com frequência ficamos entrincheirados por muros comunicacionais que impedem trocas significativas. Como resultado colhemos isolamentos, solidão, turvação de realidades, desconexão, violências e adoecimentos.

A CNV nos aponta caminhos, ou pontes, para o reencontro com o outro e conosco mesmos. Por isso se mostra bastante complementar a processos psicoterápicos e como alicerce muito consistente para a construção de diálogos e trocas mais empáticas e eficientes, também fora do ambiente clínico (Desde sua criação a CNV é aplicada à psicoteprapia, à educação, a ambientes coorporativos, grupos diversos, espaços políticos, de mediação de conflitos e criação de cultura de paz, dentre outros).

Identificar nossos sentimentos, nos responsabilizarmos por eles e, de maneira compassiva, acolher quem somos, com nossas vulnerabilidades enquanto seres faltosos, e de falha que somos e sempre seremos é o convite que a CNV nos faz, em nome da desconstrução de padrões de autoviolência e de violência dirigida a outros. Um verdadeiro giro paradigmático que implode a noção de controle do outro (e de nós mesmos), e nos conduz ao reconhecimento de que todos(as) nós temos necessidades e que passamos pela vida buscando atendê-las, utilizando-nos para isso das mais variadas estratégias. É uma linguagem de co-criação de possibilidades, de respeito, de amor.

Pelos motivos acima expostos, tenho utilizado a CNV em minha prática clínica e acompanhado o quão potente é este conhecimento e ao mesmo tempo, o quanto as pessoas são/estão desejosas por aprender caminhos e/ou estratégias de (re)encontro consigo mesmas e com pessoas com as quais tem estima e afeto, pela via do diálogo, da comunicação.

Principalmente no atendimento de pessoas subalternizadas socialmente, percebo o quanto é importante construir com elas formas e espaços de fala, de articulação eficiente, de posicionamento, sem que isso signifique autoviolência ou submissão a qualquer padrão externo de comportamento; mas sim, com foco em suas necessidades mais genuínas.

Experimentar um olhar generoso para si e para o outro abre portas para a compreensão de processos complexos e contribui para a ruptura de formas de controle de si e de quem quer que seja. É libertador! É curativo! É cuidado com a saúde emocional!

Adotar a CNV diz de ser e de permitir que o outro seja autêntico (daí a importância da empatia). Diz de recepcionar o que se apresenta vivo em nós em determinadas situações (como em uma situação de discriminação, por exemplo) e cuidar disso, e de nossas reações emocionais e comportamentais.

É abdicar do jogo “ganha-perde”, em que um precisa sempre estar “errado” para que o outro esteja “certo” e se ocupar em ser congruente e compassivo, criando espaços para que o outro também o seja, numa parceria “ganha-ganha”.

Esta prática da CNV que tenho experimentado, tem propiciado reflexões, descobertas e aprendizados importantíssimos! Trata-se de uma prática viva, dinâmica, que se interessa pelo outro e constrói com ele, a partir das referências que lhe são caras, algo mais possível, mais saudável, mais cuidadoso, mais afetivo, mais pleno e não-violento em termos de experiência de vida.

Como nos ensinou Marshall Rosenberg ( 1934-2015 – Psicólogo estadunidense, discípulo de Carl Rogers, foi o sistematizador dos conteúdos que constituem a Comunicação Não-Violenta CNV), “a CNV nos conduz a ter uma vida não menos que maravilhosa”. E, honestamente, quem de nós não quer isso?

Texto elaborado pela

Psicóloga Silvia Silva

CRP: 04/18930

Facilitadora de CNV

Contato:

E-mail: silviaxis@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Psicologiaemacaobh/

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