“Visto que nossa vida começa e termina com a necessidade de afeto e cuidados, não seria sensato praticarmos a compaixão e o amor ao próximo enquanto podemos?”

Dalai Lama

Eu não sabia até pouco tempo, e talvez você também não saiba, mas, o mês de junho é celebrado como o mês da empatia!

E o dia 12 de Junho, o dia mundial da empatia!

Mas, o que de verdade estaremos celebrando se decidirmos contemplar essa data?

O que é empatia?

O que é ser empática/o?

Como psicóloga e como facilitadora de processos de desenvolvimento individuais e coletivos, esse tema muito me interessa.

Para responder as perguntas que fiz acima, geralmente, algumas respostas aparecem rapidamente: “empatia é se colocar no lugar do outro”, ou “empatia é sentir a dor do outro”.

Reconheço a intencionalidade destas respostas, porém, gostaria de propor um aprofundamento desta compreensão em nome do resgate deste termo que considero muito importante para a manutenção de relações de qualidade conosco e com as outras pessoas.

O termo empatia tem origem etimológica no grego “empátheia”, que vem de “pathos” que por sua vez significa “paixão” ou “ser muito afetado”.

Desde o século XIX que algumas áreas do conhecimento como a Filosofia e Psicologia se dedicam a entender o que é essa tal “empatia”, essa tal capacidade humana de ser empática/o.

Muito se pesquisou, se investigou, se produziu e ainda se produz em torno do tema e, se há um ponto em comum entre todas estas pesquisas é a conclusão de que a empatia é uma necessidade humana básica, que nos apoia na construção de relações saudáveis.

Autoras(es) diversas/os defendem que há uma dimensão instintiva ou fisiológica, uma dimensão cognitiva, uma dimensão afetiva e uma dimensão relacional da empatia.

Não adentrando muito nessa seara do debate teórico-acadêmico, gostaria apenas de destacar que, na minha opinião, tem havido um uso desgastado e esvaziado do termo, o que tem levado à compreensão de que a empatia seja constituída apenas pela esfera afetiva, e ainda assim, num nível superficial e tendencioso.

Em algumas situações a palavra “empatia” tem sido utilizada para se referir ao ato de ser educada/o ou simpática/o, de ter pena, ou ser caridosa/a com alguém.

Todas estas são atitudes que podem ser muito bem-vindas em alguns contextos, mas, na perspectiva que quero abordar aqui, definitivamente não se tratam de agir com empatia.

Tomando como referência estudos produzidos no campo da Psicologia Humanista e da Comunicação Não-Violenta convido para que pensemos na empatia a partir de um outro lugar, de um outro olhar e com um outro alcance, tomando-a como “uma compreensão vinda do coração, através da qual enxergamos a beleza interior das pessoas, sua energia divina; aquilo que nela está vivo, conectando-nos com isso” (Rosenberg, 2019).

Assim para além de uma compreensão cognitiva do que está acontecendo com a outra pessoa, e também para além de tentar nos colocar no lugar dela para sentirmos o que ela sente, buscamos um outro estado de contato.

E isso porque considerando que por mais que nos esforcemos para nos colocar no lugar dos outros, ainda seremos nós mesmos com nossos filtros, nossos julgamentos, nossa história; assim, o que acessaremos, independente de nossa vontade, passará por esses filtros, pois, não deixaremos de ser quem somos.

Isso em si não é um problema: ser quem somos.

Pelo contrário!

Na perspectiva que apresento, é justamente esse encontro, eu sendo quem sou e o outro sendo quem é, que abre a possibilidade de desenvolvermos empatia um pelo outro.

Então, aí já se coloca o primeiro desafio: no encontro com o outro ser humano, apesar da forma como fomos socilizadas/os para a competição, destruição e controle, conseguirmos criar um espaço acolhedor e seguro para que cada um de nós possa ser congruente consigo, com o que está vivendo.

Conseguindo vencer esse primeiro desafio, o próximo passo será manter certa qualidade de presença com.

Estar com o outro de forma inteira, integrada, sem condições; apenas permitindo a emersão de nossas humanidades. Poder olhar, ouvir e sentir o outro na sua inteireza genuína, profundidade e formas de expressão, mesmo que “o que apareça” seja muito estranho, diferente e divergente em relação a meus pontos de vista.

Nestas condições, atitudes contumazes nossas durante as interações como aconselhar, tentar “resolver” o problema do outro, encorajar ou comparar o que o outro traz com outras situações, perde o sentido porque o que se acessou é muito mais forte, muito mais transformador, muito mais curativo.

É, nos termos de Fretes (2011), “respeitar o ser humano acreditando profundamente que ele é único, e que devido a essa unicidade só ele possui todo o potencial específico para aprender a viver da forma que lhe é mais satisfatória”.

Um outro aspecto da empatia que quero destacar aqui é que a empatia pode ser aprendida e desenvolvida!

Diferentemente do que muitas/os pensam, podemos aprender a ser empáticas/os se assim o quisermos.

Considerando que há em todas/os nós uma predisposição ontológica para isso, podemos então, por nossa escolha, resgatar essa predisposição muitas vezes apagada, enfraquecida ou acuada por processos sócio-culturais violentos a que estamos expostas/os.

Nos círculos de praticantes da Comunicação Não-Violenta é muito comum usarmos a expressão “malhar o músculo da empatia” numa analogia ao fortalecimento muscular corporal. A ideia é a de que estejamos cotidianamente atentas/os a situações e contextos em que possamos praticar conscientemente nosso “músculo empático”, ou seja, que possamos ser empáticas/os (ou pelo menos ter consciência de que não estamos sendo) com quem não faz o que queremos, com quem tem autoridade sobre nós, com situações que nos causam aversão e etc.

Mas atenção: ser empática/o não significa de jeito nenhum concordar com algo ou alguém. Na contramão, significa olhar, ver e se conectar para além da superfície até para que possíveis decisões de responsabilização (e não de culpabilização) possam ser adotadas com maior segurança e assertividade.

E para terminar, sem esgotar o assunto, por certo, quero chamar a atenção para a autoempatia.

Classifico a autoempatia – uma conexão congruente, autêntica e sem julgamentos comigo mesma/o – como uma atitude de autocuidado e de saúde.

Vivemos em uma sociedade que lança mão de vários artifícios visíveis e invisíveis para que nos sintamos frequentemente mal, incapazes, pequenos, sem luz, selvagemente competitivas/os, inseguras/os, sem valor e sem perspectivas. Estamos sempre no limite tênue entre o adoecimento psíquico e o atendimento de expectativas internas e externas. Como somos levadas/os a ser cruéis conosco…! Como aprendemos desde sempre a falar “sim” pra fora, pro outro e a falar muitos “nãos” para nós mesmas/os…!

Neste cenário, a autoempatia pode ser altamente poderosa. “Uma maneira complexa e intensa, ainda que sutil e suave” (Moreira, 2013) de conseguir nos acolher e cuidar, respeitando e assumindo nossas vulnerabilidades tão humanas, e também, reconhecendo nossas virtudes.

Uma movimento de reinvenção e, inequivocamente, de liberdade e de cura!

Me saber bem-vinda e aceita por mim mesma, com minhas experiências, com minha história pessoal, com meu corpo e com minhas energias abre um verdadeiro “portal” de possibilidades, maleáveis e graduais, que concorrem para uma vida mais livre, com mais conexões de qualidade e mais saudável.

Por isso, defendo aqui que celebremos a empatia!

Não somente em junho; celebremos sempre e todos os dias! Que seja uma celebração transformada em prática ampliada de transformações e construção de histórias e de uma sociedade em que a diferença entre as pessoas e suas formas de viver sejam somente fonte de aprendizado, riqueza existencial e prova do quão maravilhosas/os podemos ser.

Desafiador? Muito!

Por isso esse meu convite para essa outra compreensão sobre empatia.

Entendo que que essa perspectiva e apreensão podem ser potentes fontes de mudanças estruturais e individuais.

Acredito que empatia, como apresentei aqui, refunda nossos laços de humanidade, grandeza, dignidades e plenitudes. Ao mesmo tempo, nos dá elementos para ações diversas, num fluxo dinâmico e restaurador de nós mesmas/os e do mundo.

Psicóloga Silvia Silva

CRP: 04/18930

Facilitadora de CNV

Contato:

E-mail: silviaxis@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Psicologiaemacaobh/

BH/MG

Referências

Fretes, V. (2011). A arte da empatia: a importância da empatia no sistema de desenvolvimento humano – biodanza. Monografia apresentada junto à ibf – international biocentric foundation. Acessado em 10Jun2019. http://pfbiodanza.pt/files/customerMonografia/200/64/MONOGRAFIA-VASCOFRETES.pdf

Moreira, V & Torres, R. (2013). Empatia e redução fenomenológica: possível contribuição ao pensamento de Rogers. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 65(2), 181-197. Acessado em 10Jun19. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-52672013000200003&lng=pt&tlng=pt.

Rosenberg, M. (2019). A linguagem da paz em um mundo de conflitos. São Paulo: Palas-Athena.

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